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Lagoa das Sete Cidades

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“Para chegar à Lagoa das Sete Cidades a partir de Ponta Delgada, terá de passar na povoação da Relva. Tomando a estrada do Carvão, passará pelas lagoas do Carvão e do Canário. Desse local terá uma primeira noção paisagística da ilha de São Miguel, pois dali se avistam, tanto a costa norte como a sul.

Finalmente, no topo da estrada, a “revelação” da chamada “Vista do Rei” (D. Carlos e D. Amélia visitaram a ilha em 1902), sobranceira à Lagoa Verde e à Azul, no fundo da vasta caldeira. O conjunto do vale, muito impressivo, está cercado pela bordadura vulcânica a toda a volta, e tem a pitoresca designação de Lagoa das Sete Cidades, evocando perdidas Atlântidas e emocianantes lendas populares.

Nem sempre o tempo está propício para a melhor observação desta paisagem: os frequentes dias enevoados, a velocidade com que o tempo muda nas ilhas, os nevoeiros inesperados, fazem da subida uma incógnita otimista. Mas a recompensa surge, extasiante, por vezes entre duas nuvens esparsas: é belíssima a visão dos dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos – na frase de Raúl Brandão.

No local, bordejado pelas hortênsias, foi implantado um painel de azulejos (autor Mário Costa), pago pelo Estado e executado em 1969. Mais infeliz foi a vizinha construção do enorme hotel, verdadeiro “elefante branco” que, num mau entendimento do turismo açórico, desfigurou inutilmente este espaço magnífico e nunca funcionou.

Impressiona a calma do local, onde um “estranho silêncio” reina e acentua a impressão irreal e distante da vista da aldeiazinha, dos lagos e das montanhas envolventes.

Pode descer-se para o interior desta vasta caldeira, passando o miradouro do Cerrado das Freiras, e visitando em baixo a minúscula povoação das Sete Cidades. Prosseguindo, pode subir-se novamente e sair da cratera pela caldeira poente, seguindo pela estrada da Seara, e retornando pela Várzea, ao longo da costa sul-ocidental, para Ponta Delgada.”

in Guia Expresso, O Melhor de Portugal

 
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Publicado por em Junho 6, 2013 em São Miguel

 

Inspira a tua vida

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“A revista Condé Nast Traveler anuncia, na capa de julho, um texto sobre as vinte mais belas ilhas do mundo. Apeteceu-me perguntar quais seriam as outras onze. Mas tratava-se de resultados de um inquérito a leitores – contaram critérios de popularidade e a maioria dos votos inevitavelmente contempla as ilhas mais visitadas. Não esperava de resto encontrar nenhuma dos Açores, ainda hoje um bem guardado segredo. Nesta lista, porém, de que conheço razoavelmente umas dez, bem poderiam figurar algumas açorianas. Mas se o clima tantas vezes trombudo e caprichoso não tem colaborado no turismo, tem ao menos garantido a preservação de uma das últimas reservas naturais da Europa Ocidental. William Buckley, em Atlantic High, conta do pasmo ante a sua descoberta das ilhas. Velejador dos quatro oceanos, sentiu-se à vontade para soltar a subjetividade declarando-as as mais belas do mundo. Não há muito, Bill Strubbe, em The New York Times, descreveu os Açores como um cruzamento entre a Irlanda, a Nova Zelândia e o Havai. Não era preciso socorrer-me de argumentos de autoridade estrangeira. Raúl Brandão vale bem em prole de escritores de viagem. As Ilhas Desconhecidas, pelos açorianos adotado como seu, é, ainda boa leitura de vésperas de partida.

Hoje, para a metrópole, o arquipélago não é mais uma distante lembrança, desconfiada desse namoro constante com a América. E sê-lo-á cada vez menos porque, entregue Macau, do império não restará mais que o manto diáfano da lusofonia e os dois arquipélagos ao pé da porta. Que recomendações fazer a quem nunca lá foi?

Comece por fazer o seu percurso de caloiro, visitando os lugares cliché.

  • Em São Miguel, as Furnas (caldeiras e parque) as Sete Cidades, a Lagoa do Fogo e as estufas de ananases;
  • na Terceira, Angra;
  • depois, a Horta, no Faial e as vistas sobre o Pico.

Nos Açores de hoje descobriram-se também os passeios a pé, o montanhismo, os desportos náuticos, a arqueologia submarina. Indague em cada ilha. Se for para descansar, descanse sem parar exatamente a fazer tudo isso. Se lhe restar algum tempo acordado, descubra os autores açorianos. Hoje as ilhas quase produzem mais literatura do que cereais ou pastel no tempo das descobertas. Ajudá-lo-ão nessa outra viagem aos Açores profundos. Depois desta, inicática, aqui sugerida, estará então aprovado para descobri-los por si próprio.”

in Açores, um olhar, Onésimo Teotónio de Almeida

 
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Publicado por em Maio 15, 2013 em Açores

 

Faial e Pico

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“Pico – A subida à montanha é o clímax. Vá com um guia, evidentemente. Atravesse o mistério da ilha pelo interior. Um banho no porto da Calheta do Nesquim não esquece mais. Na volta à ilha – por todo o lado – por todo o lado da fúria da vegetação a explodir por entre as pedras negras – não faltam miradouros, mas não perca o da Terra Alta; e, nas Lajes, o Museu dos Baleeiros e uma saída de barco a ver baleias.

Faial – A Horta é de uma finura simples. Microcosmo cosmopolita. (Não é só o Peter’s). É mais fotogénica do alto do monte da Guia, do monte Carneiro, ou do alto da Espalamaca, o lugar clássico. Uma madrugada eu vi dali o mais belo espetáculo da minha vida: o nascer do sol por detrás do Pico, com S. Jorge e a Graciosa ao fundo. Já posso dispensar auroras boreais. Os Capelinhos são um espetáculo lunar legado pelo vulcão. Ali percebe-se como se fizeram as ilhas. Aos poucos o verde vai triunfando sobre as cinzas.”

in Açores, um olhar, Onésimo Teotónio de Almeida

 
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Publicado por em Junho 6, 2012 em Faial, Pico

 

Açores – uma geografia mágica

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Vicente Jorge Silva

in Público, Junho 1997

Terça feira, 24

“Açores? Já fui a oito ilhas, só não conheço a Graciosa.” Habituei-me com esta fórmula a exibir o meu invejável estatuto de viajante insular junto dos amigos – especialmente, como é óbvio, dos açorianos – que não podiam gabar-se de tal recorde. E era com um misto de incredulidade e ciúme que reagia a desempenhos superiores ao meu: “Açores? Eu conheço as ilhas todas. E a Graciosa, uma beleza…”

Não foi ainda desta vez que pus os pés na Graciosa e visitei a tal fantástica lagoa interior de que os privilegiados conhecedores me tem falado. Em todo o caso, jurei a mim mesmo nunca mais repetir a pose patética de maratonista dos Açores. Que significa ter viajado por oito ou nove ilhas quando cada viagem é a primeira e há sempre um enigma à nossa espera na face submersa de cada lugar? No fundo, até aqueles sítios que são mais familiares acabam por trazer-nos revelações surpreendentes. É como se o espaço crescesse indefinidamente, num “big bang” de descobertas sucessivas, através dessa geografia mágica que o mito da Atlântida fez explodir em nove pequenos mundos no meio do mar.

Dei-me conta no Faial, uma ilha que julgava conhecer razoavelmente, que nunca estivera nos Capelinhos. Como foi possível tal escândalo de ligeireza? Como não ter corrido, logo na primeira vez, ao encontro desse fragmento cósmico que, a partir das ruínas de um farol – perturbante como nenhum outro -, se estende como uma esfinge nascida do fogo atlântico? Os Capelinhos são muito mais do que o último vulcão dos Açores. Sob essa lava jovem de quarenta anos (foi em 1957 -58 que a erupção aconteceu) podemos viajar como o primeiro homem sobre a Terra, o primeiro astronauta que desceu na Lua ou aquele que irá desembarcar um dia na desolação vermelha de Marte.

Imaginemos então que os Açores não são nove ilhas mas uma só, uma espécie de continente virtual, uma nova Atlântida onde vamos compondo o puzzle dos lugares que o mar separou e nós pacientemente juntamos por afinidades ou contrastes, uma paisagem interativa. Dos Capelinhos, passo, sem transições para São Miguel – uma ilha que julgava conhecer bem e de que o meu amigo Carlos Medeiros me revelou insuspeitados segredos – e entro diretamente na atmosfera surreal de umas termas abandonadas à beira-mar, uma cratera, uma casa branca, duas araucárias.

Na baía da Caloura à noite, com a sua velha piscina fantasmagórica, sinto-me transportado para um verão do pós-guerra, o fim da infância nos anos 50. Salto por cima do tempo, anos 90 a acabar: outra piscina, destruída pelo último temporal, uma moradia moderna de basalto e vidro apontada ao mar agreste.

Deixo-me então perder no labirinto urbano de Angra, a Horta e Ponta Delgada se entrecruzam ( e eu que, horrorizado com a medonha marginal da capital micaelense, não soubera até agora desfrutar daquelas ruas estreitas e brancas onde bate o coração da cidade!)

A digressão poderia continuar num jogo interminável de imagens: florestas, caminhos selvagens de montanha, jardins tropicais (haverá outro mais belo na Europa do que o do hotel Terra Nostra, nas Furnas?) as caldeiras, as fumarolas, a água oxidada das piscinas, a terra viva e a crepitar dos abismos. E esse lugar absolutamente mágico, cenários de uns encontros imediatos de terceiro grau, que é a Lagoa do Fogo. (…)

Por incrível que possa parecer, numa terra onde a imagem do abandono é a primeira que nos acolhe, Santa Maria é talvez a terra portuguesa onde a paisagem rural está mais exemplarmente preservada. Casas caiadas de branco e debruadas a azul, verde, carmesim, com suas chaminés e telhados impecavelmente conservados ou reconstruídos, pontuam harmoniosamente as encostas do interior ou as falésias sobre o mar (a baía de São Lourenço, com as vinhas em socalcos e a aldeia debruçada sobre as pequenas praias de areia branca, é um espanto). (…) Mas isto não é tudo: circula-se pelas estradas da ilha em verdadeiros tapetes de veludo betuminoso, numa viagem de prazeres calmos e suaves como a paisagem solicita.

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Publicado por em Maio 27, 2012 em Açores

 

Na Ilha Azul

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Fotos de  Quartos para férias na Matriz, Horta, Faial

José Quitério

(in Expresso, 19 de Junho 1993)

Já percebi o que as nove ilhas tem de mais belo e as completa é a ilha que está em frente. Se esta perceção de Raúl Brandão (em As Ilhas Desconhecidas, 1962) se pode aplicar a muitas delas, a nenhuma se cola com mais evidência do que ao Faial. É o Pico, a ilha e a montanha mágica, do outro lado do Canal. Ainda o impressionismo brandoniano: A outra coisa que exerce aqui uma verdadeira fascinação é o Pico – tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação. Todo o céu dourado e o Pico roxo. Tarde e a lua enorme a nascer por trás daquele paredão imenso que chega ao céu. É majestoso e magnético. Está ali presente como um vagalhão que vai desabar sobre o Faial.

Numa rápida viagem ao redor da ilha – 21 quilómetros de comprimento e 14 de largura máxima, superfície de 173 quilómetros quadrados -, saia-se da Horta para norte e suba-se ao morro da Espalamaca, com pitorescos moinhos, bom miradouro sobre a cidade, o mar, as ilhas de São Jorge e Pico, e igualmente boa perspetiva sobre o verdejante vale dos Flamengos, onde se fixaram os primeiros povoadores. Siga-se para a Praia do Almoxarife, de amplo areal, e sucessivamente Pedro MiguelRibeirinha, SalãoCedros e, contornando a respetiva Ponta, a Fajã da Praia do Norte, donde se alcança a baía da Ribeira das Cabras, num trajeto ladeado por falésias de grande beleza, com campos de lava (“mistério”) e grandioso panorama da costa norte. Um saltinho e está-se na Ponta dos Capelinhos, local da formidável erupção vulcânica de 1957- 58, que criou uma ilhota que veio juntar-se à terra firme e arrasou casas e campos em redor. Lá está ainda, testemunha da catástrofe, o fantasmático e semidestruído farol, e lá existe um curioso museu documentativo da calamidade vulcanológica.

O regresso é mais cordato, passando-se por Varadouro, centro da vigiliatura em termas e piscina natural entre rochedos, Castelo Branco com a sua Ponta e consequente promontório (o aeroporto fica perto), Feteira, de costa guarnecida de grutas e furnas marinhas, finalmente o Monte da Guia, sobranceiro à Horta que está ligado pelo Monte Queimado e estreito istmo, com suas admiráveis Caldeirinhas, sua reputada Ermida e sua paisagem protegida.

Em qualquer altura é fundamental ir-se ao meio da ilha para a visão da Caldeira,, cone vulcânico com uma enorme cratera – 1 450 metros de diâmetro e 400 de profundidade -, revestida de cedros, zimbros, faias, fetos e musgos, obviamente reserva natural. Perto, o Cabeço Gordo, com 1 043 metros, outro magnífico miradouro desta e doutras ilhas.

Melhor que falar da cidade da Horta é percorrê-la placidamente. E, para além do traçado e dos monumentos, mas com a ajuda das pinturas do paredão da doca, facilmente nos apercebemos de um certo caráter cosmopolita que lhe enforma a alma. Nada de admirar. O seu fundador foi o flamengo Josse van Huerter (donde derivam Horta, Utra, Dutra); no século XIX, os estrangeiros foram trazidos pelo cônsul norte-a,americano John Dabney que marcou, mais os sucessores, toda a centúria; no princípio do nosso século XX foram os franceses, ingleses e alemães que pertenciam às companhias de cabos submarinos; depois, de 1936 a 1945, os hidroaviões a fazerem escala por aqui; sempre, veleiros e iates das mais variadas nacionalidades a procurarem abrigo do porto.

Com ou sem sede, é imprescindível visitar o Café Sport, ou Peter’s, o bar mítico da cidade. Ponto de encontro dos iatistas de todo o mundo que dele fazem posto de correio e de câmbios, agência de informações e porto de auxílios vários, ao seu proprietário prestimoso, José de Azevedo (a quem há muitos anos um inglês crismou de Peter), se deve o fabuloso Museu Scrimshaw, no primeiro andar, riquíssima coleção de gravações em dente e osso de baleia. Parece mal sair-se sem lá tomar ao menos um gin-tónico.

De longada agora até às muralhas do Porto Pim e ao Pasteleiro. Tão falado este no Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio – fucava por lá a quinta dos Dulmos, e João Garcia chega a proclamar: O Pasteleiro é a volta dos tristes do Faial… Bastam uns meses longe para a gente ter saudade disto.”

 
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Publicado por em Maio 26, 2012 em Faial

 

Azores – Green islands

 
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Publicado por em Janeiro 28, 2012 em Sem categoria

 

Azores – National Geographic

 
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Publicado por em Dezembro 30, 2011 em Sem categoria