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Coletânea

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Bote baleeiro(crédito de imagem: Hugo)

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“Esta é uma pequena freguesia da ilha do Pico, nos Açores. Não a nomeiam as cartas dos geógrafos, nem os livros dos escritores, nem os cânticos dos poetas. Nada de notável a assinala; nem um monumento antigo, nem apelido de filho ilustre perfilhado entre os graúdos dos tempos idos.

Toda via são belos os seus matos, que, lá no alto, no interior da ilha, se requebram em curvas gráceis de outeiros e montes, e montanhas revestidos de verduras, ou se largam em extensos vales silenciosos, atapetados de amplos relvados, marchetados de compridos renques de cedros e azevinhos e, de onde em onde, purificados pela benção das águas tranquilas e transparentes de charcos, paúis e lagoas. E são belas as desafogadas vertentes  que vêm lá de cima, da plataforma onde se aninham aqueles vales e sobranceiam aqueles montes, e que, como se saíssem de dentro do céu, de ao pé das nuvens e das estrelas, descem até aqui, ao recorte caprichoso e irregular desta linha de penedias negras, que o mar beija e enlaça na carícia amorosa da babugem branca das suas espumas. Belas, sim, estas coloridas vertentes, salpicadas de minúsculos magotes de faias e incensos, e figueiras, retalhadas em pequenps currais de vinha e não maiores campos de milho ponteados pelo perfil branco das casinhas modestas e vincadas pelos sulcos cinzento escuro dos velhos e pedregosos caminhos.

Naqueles campos, ao longo daqueles caminhos, não há quem não tenha um quinhão.

– Cada um é senhor da terra que trabalha e da casa que o abriga,

E o mar? – E o deslumbramento do mar, com as majestosas raivas apocalípticas das suas vagas, em dias de temporal, e a luminosa serenidade do seu imenso azul, quando, limpo o céu de negrumes tétricos, o sol a tudo e a todos envolve nas suas flamas de vida e alegria? E, nesse mar, a epopeia das velas brancas dos botes dos baleeiros, recortadas, vaporosas e leves, na neblina da distância? e, no porto, o remanso da casa dos botes, o lar de toda a gente; e as esbeltas embarcações adormecidas sob as suas telhas; e os velhos caçadores de montros oceânicos a evocarem as suas espantosas façanhas de arrojo e valentia…

Porque esta – é a terra de baleeiros!”

(Dias de Melo, “Mar Rubro”  in Baleeiros dos Açores, 1958)

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“- A terra melhor do que o mar? Em quê?…

– É mais generosa.

– Mais generosa?! Adeus, compadre! Trabalhas todo o santo dia, meses e meses a fio, para arrancares dela uma côdea de pão, que sai do forno, parece, ainda molhada do suor do teu rosto! Eu, vou para o mar, e, enquanto o demo esfrega um olho, ele oferece-me peixe em abundância, quase pronto a ir para a panela ou para a frigideira. Eu não lavro, não grado, não adubo, não semeio, não sacho, não mondo, não descabeço nem ceifo, não desfolho nem debulho, não moio, não amasso, apenas engodo o peixe e logo o puxo e conserto-o e frito-o ou cozo-o!

– Ou vende-o e… bebe-o!

Bico Amarelo sentiu a ferroada, mas limitou-se a uma careta, prosseguindo:

– Mais generosa a terra?! Quando Nosso Senhor precisou de dinheiro, a fim de pagar tributo a César, aonde o foi buscar? Porventura mandou São Pedro cavar a terra?… Não! Ordenou-lhe que lançasse o anzol ao mar, e imediatamente a ponta do caniço tremeu, e um belo peixe surgiu. “Abre-o”, disse-lhe Jesus; e o grande pescador encontrou-lhe dentro duas moedas para o tributo: uma pelo Mestre e outra para ele. E quase todos o Apóstolos… que profissão tinham?… Digam lá! e que eu saiba, Cristo só cozinhou uma vez: carneiro?, galinha?, vaca? Não! Cozinhou peixe!”

(J. Machado Lourenço, Lágrimas do Ti’Bico Amarelo)

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“A noite ia escura, barrada de grossos turbilhões de nuvens, ponteadas de raras estrelas afogachadas, alagadas de pesados aguaceiros, mal deixando enxergar a orla branca da praia, esfarrapada de espumas, que por vezes se erguiam, espadanadas alto, voando em flocos, como gaivotas feridas, acossadas por uma gritaria ensurdecedora.

O tio João, depois de se haver demorado a escutar o rumor da tormenta, foi rápido aos pés do leito, onde tinha as calças e a camisa de fora, vestiu-se apressado, envergou o casaco de oleado, enfiou na cabeça o sueste, agasalhou-se e saiu precipitado:

– Não tardo! Se o Senhor Espírito Santo não lhe acode não escapa um rato!

(…)

Dum pulo o tio João Francisco foi lá dentro, voltou precipitado a riscar fósforos – estupores que não querem pegar! – e pôs-se com a vela assim de banda para o lume tomar força.

A tia Rosa aflita, a chocalhar as contas e a botar-se pela cama fora, de falripas pelos ares, interrogou firme e intimativa:

– Ó home’! Mas o que é que aconteceu?

– É acender a lamparina e dar-lhe força, e é bom acender também umas vassoiras no lar, e abrir o postigo para a luz se ver lá de fora… Anda aí um navio que se vai c’o diabo!…

A boa mulher a tremer, nervosa, a chorar, a invocar Nossa Senhora e os santos, fez um lumaréu na cozinha, escancarou o postigo da porta que deitava para a praia, e empinou-se por dentro da vidraça a rezar, comovida: Ave Maria, cheia de graça… – a vigiar o fosco clarão da lanterna, que desenhava a silhueta negra do tio João, erguida sobre um bico de rocha.

(…)

E o tio João, todo ancho, a apagar o lume mai-la mulher: que o navio se vinha mais dentro uma dúzia de braças já não se safava, mas que assim que aparecera com a luz sobre a praia, fora prometendo meia soldada a este santo, meia soldada àquele outro, um círio a este, uma serrilha para aquele, e logo o navio vira bordo, caminhando por ali fora como um raio!…

(…)

No outro dia o tio João Francisco, sentado na popa da sua lancha, a iscar o anzol, docemente baloiçado por um lindo mar de verão, narrando à companha o episódio da noite, rematava:

– Até fiz uma promessa a um coisinha negro que está acolá numa igreja, por essa terra dentro!…”

(Nunes da Rosa, Gente das Ilhas, 1925, obra póstuma)

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“No leito de musgo verde, mal despontava ainda o sol, acordou estremunhada… Bocejou… Pestanejou… Abriu os olhos dourados… E afastando o lençol, tecido de pétalas de rosa, espreguiçou graciosa, dois braços bem torneados… Dormira profundamente… Mas ao ver as cores da madrugada, sorriu, respirou fundo… e levantou-se apressada. As faias tinham florido, os jasmins e o malmequer, os gerânios e as fruteiras… – tudo para a receber. E o melro espevitado, ao ver a Bela passar, toda vaidosa e contente, sem sequer para ele olhar… assobiou despeitado, de cima dum tronco de hera:

– Olá, olá, fale à gente, ó menina Primavera!…

(Maria do Céu, “Primavera de 1958”, Voz de Mulher, Rimas e Rosas de Milagre, 1977)

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