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Água

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(crédito de imagem – Hélio Sales)

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“Talvez por o mar ser o oceano. Algo de que se sente em excesso a intransponibilidade, mesmo quando se trata de içar qualquer vela ou acender o motor para chegar a uma ilha mais próxima por fossas longínquas de vagas. Nunca se sente nos Açores a mesma intensidade de relação com o mar  que existe em outras ilhas de mar não oceano, como as mediterrânicas, já que de outras partes do mundo não posso dar exemplo. aliás, compare-se qualquer poema com mar de Nemésio a outro poema com mar de Seferis, um quase contemporâneo seu, até certo ponto marcado pela mesma mesma época literária. O que no grego é físico, sofrimento, total responsabilidade histórica é no açoriano uma componente metafísica, um adereço com histórias de que precisa para acentuar motivos que são da terra e à terra voltam.”

(Joaquim Manuel Magalhães, Do Corvo a Santa Maria, 1993)

*

Correspondência ao Mar

Quando penso no mar

A linha do horizonte é um fio de asas

E o corpo das águas é luar;

.

De puro esforço, as velas são memória

E o porto e as casas

Uma ruga de areia transitória.

.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:

O mais é mar, que o remo indica,

E o bombeado do céu cheio de mastros avulsos.

.

Eu, ali, uma coisa imaginada

Que o Eterno pica,

Vou na onda, de tempo carregada,

.

E desenrolo…

Sou movimento e terra delineada,

Impulso e sal de pólo a pólo.

(Vitorino Nemésio)

*

Espalamaca1

A última viagem do picaroto amigo do povo sem rival

Ler Almeida Firmino

É ver a Calheta a escrever

                                    Um poema

Em mar de medos e aventura

Ditado nas ondas

Pelo mestre em manobra segura

Sem medo

Em dias de invernia

E a lancha parava vezes sem conta

E era essa a conta

Que ditava

Nas nossas conversas

“A lancha parou três vezes”

Era sinal de três ondas formidáveis

Na verdade e no imaginário

Maiores que as torres da igreja.

O cais

Era apertado

Tão apertado

Como a ansiedade vivida

Só de pensar que não era a Espalamaca

A maior

A lancha grande

Oh! Como era grande a Espalamaca!

Hoje

No cais

Já não canta

Esvai-se em apodrecido esquecimento

E tem saudades

Das viagens de outrora

Quando esguia, bela e solene

Se atirava

Ao mar

E nos levava de um lado para o outro

Do Canal

Enquanto

Ronceiro, o barco fugia

Em outra direção

Mas também chegava ao porto.

.

O Manuel José, o Caridade, o Picaroto, o Santo António

Apodreceram

No silêncio do poema

Em noites de lua triste

A palavra

Por entre os ilhéus

Da meia broa

Quando passava atormentado

Com soldadas

De fome

E pão ainda farinha

.

Os barcos

São como a gente

Só morrem uma vez por ano

E chegou essa vez

Jazem

No cais

Adormecidos para sempre

Sem imagem

Sem a cor das suas linhas

Sem os aparelhos

Da nossa navegação

Sem a memória do que fizeram

Mas guardados

Na lembrança perdida

Dos dias de outrora.

.

E eu fico

Rapazinho

A saborear aquele nome

Pela primeira vez

Em uma tarde de passeio

Junto a uma araucária da Areia Larga

Quando ouvi o canto melancólico

Do Picaroto

Antes de um por do sol

Envolto em poesia

Atravessar os salgueiros

E pintar de roxo

A cor do destino

.

Sentir aqueles barcos

Aquelas lanchas

Dormindo sobre os seus ventres

Esvaídos no caruncho

Da sorte

É perder o passado

É matar a história

É perdermos tanto

De quase tudo

De muito

.

Quero ouvir o canto

Dos barcos e das lanchas

Nas travessias de outrora

Onde

Tantos pedaços de nós

Navegam

Ainda.

.

Quero ver a lancha

A subir a vaga

A cavalgar a onda do norte

Na destreza de uma manobra

Do mestre

E descer a prumo

O cabeço imenso

Que o maroiço encerra

Entre o ilheu deitado

E o ilheu em pé.

.

Ouvir a campaínha

Tocada pelo mestre

E o maquinista distraído

Deixando a lancha dormente

E a gente

Sem saber do perigo

E de novo

A Calheta a erguer a proa

Ao fim de um século

De angústia

Rasa de água

Derramada na alma da gente

E o José Medeiros

A dizer que o mar da popa

Era pior

E a gente respondia:

“Mas íamos mais depressa…”

.

Depois

Chegados à doca

No mar manso do cais:

“Graças a Deus que chegámos!”

E o mestre Feijó

A rir:

“E graças a mim, nada?!”

Ajudar o Gilberto

Na procura do melhor nome

Para o cabaz

Pela cidade do primeiro exílio

E de tantos amores perdidos…

.

Aqueles barcos

E aquelas lanchas

Levam-nos nos seus corações

E nós a eles

Nos nossos.

.

Os barcos já não são

Os de Almeida Firmino

Não escrevem mais poemas

Com as quilhas

Mas fica a mesma vontade

De partir

Ficar

Mas não esquecer.

.

Os marinheiros passaram

As marés hão de vir sempre

Mas os barcos foram

Esquecidos

Apagaram-se as velas

Do Rival e do Adamastor

Ficou o vento

E as folhas secaram.

.

Já não há barcos

Mas há problemas para dar vida

Às lanchas atravessadas no mar do esquecimento.”

Manuel Tomás, Maroiço, Companhia das Ilhas, 2013

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