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Fajã do Ouvidor

06 Jun

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Restaurante_Amilcar_9

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“A ilha mais esguia de todas as nove açorianas não tinha por onde mais se estender, o mar de todos os lados, a proximidade das irmãs Pico e Faial a estorvarem a expansão. Vai daí, roubou nesgas de superfície ao oceano. As fajãs, famosas, justificam esta pequena história que os locais gostam de contar. a maior parte delas constitui testemunho do esforço final dos magmas sobre o mar envolvente, quando a torrente, já sem fôlego ou sem necessidade dele, deixou-se apenas espraiar, cativa das ondas. Outras são linguetas de terra onde se desprenderam fragorosamente, em tempos idos, das arribas da penedia e mergulharam de supetão no mar costeiro, criando pequenas mas ferteis planuras de difícil acesso e invulgar beleza. Pelas fajãs nos vamos, pois, a São Jorge.

Tudo terá de começar nas Velas, a vila-capital. Não há que enganar, os caminhos são só um… que se divide em duas alternativas, chegados ao sítio da Urzelina, antiga sede de cultivo da urzela tintureira, afamada pelo colorido nos tecidos medievos. Esqueça o caminho tradicional, que leva à localidade da Calheta – embora nesse percurso tenha duas belas pequenas fajãs, de fácil acesso, a das Almas e a Grande. Rume pela esquerda, em direção a Norte Grande.

Sobe-se para atravessar a crista da serrania no cabeço da ilha, com o seu pico maior, o da Esperança (1053 metros) – não antes de passar pelos picos das Caldeirinhas e do Montoso – e desce-se pelo caminho de Santo António, povoação encavalitada a 530 metros sobre o oceano. vamos a descer, sem quase esperarmos, para a costa norte.

A rebentação bate mais forte deste lado, desabrigado, sem a proteção da ilha do Pico, como acontece na costa do lado oposto. Mar aberto que traz à paisagem dos sítios que visitaremos, ainda com mais impacto, a crueza das rochas magmáticas pouco erodidas, ainda de arestas selvagens. Lembremos que ainda há erupções na ilha e que a de há cerca de 150 anos acionou a cratera do Pico da Esperança com tamanha força que este vomitou escórias e lavas sobre povoados e terras de cultivo, arrasando-os. Em 1980 outra erupção fez espavorir as gentes de algumas localidadezinhas desta vertente norte.

As fajãs vão suceder-se como unhas laterais saindo de um enorme dedo único. Superfícies planas ao nível do mar, confrontam-se na esmagadora mole de pedra firme que lhes serve de anteparo criando ravinas com centenas de metros de altura, impressionantes ao ponto de remeterem quem em baixo está para a insignificância da nossa real dimensão.

O Norte Grande dá passagem para a formosa Fajã do Ouvidor, de mais fácil acesso, de sapata mais larga e, por isso tudo, a mais urbanizada. É certo que será hora de refeição quando lá chegar, e a mesma está exposta para as comidas o restaurante próximo. Depois do café é impossível fugir ao sortilégio de permanecer por muito mais tempo, paralisados pelo “destino” de quedar-se preso no remanso dos tempos, entre os elementos.

Há que partir de novo. Apanhe a estrada para a Fajã dos Cubares. Depois cumpra a pé a distância que vai ligar à encantadora Caldeira de Santo Cristo. Desde os tempos da erupção de 1980 que mais ninguém mora ali, alé de uma família que o receberá de braços abertos e terá uma bebida refrescante para vender. A lagoa e a furna com lago interior são de visitar.

Tem o batismo das fajãs cumprido. Há poucos sítios onde o viajante possa confrontar-se tão desabridamente com os elementos ainda em convulsão. Experiência forte que vale para a vida inteira. Em São Jorge a paisagem assume foros de radical.”

in Guia Expresso, O Melhor de Portugal

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Publicado por em Junho 6, 2013 em São Jorge

 

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