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Açores – uma geografia mágica

27 Maio

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Vicente Jorge Silva

in Público, Junho 1997

Terça feira, 24

“Açores? Já fui a oito ilhas, só não conheço a Graciosa.” Habituei-me com esta fórmula a exibir o meu invejável estatuto de viajante insular junto dos amigos – especialmente, como é óbvio, dos açorianos – que não podiam gabar-se de tal recorde. E era com um misto de incredulidade e ciúme que reagia a desempenhos superiores ao meu: “Açores? Eu conheço as ilhas todas. E a Graciosa, uma beleza…”

Não foi ainda desta vez que pus os pés na Graciosa e visitei a tal fantástica lagoa interior de que os privilegiados conhecedores me tem falado. Em todo o caso, jurei a mim mesmo nunca mais repetir a pose patética de maratonista dos Açores. Que significa ter viajado por oito ou nove ilhas quando cada viagem é a primeira e há sempre um enigma à nossa espera na face submersa de cada lugar? No fundo, até aqueles sítios que são mais familiares acabam por trazer-nos revelações surpreendentes. É como se o espaço crescesse indefinidamente, num “big bang” de descobertas sucessivas, através dessa geografia mágica que o mito da Atlântida fez explodir em nove pequenos mundos no meio do mar.

Dei-me conta no Faial, uma ilha que julgava conhecer razoavelmente, que nunca estivera nos Capelinhos. Como foi possível tal escândalo de ligeireza? Como não ter corrido, logo na primeira vez, ao encontro desse fragmento cósmico que, a partir das ruínas de um farol – perturbante como nenhum outro -, se estende como uma esfinge nascida do fogo atlântico? Os Capelinhos são muito mais do que o último vulcão dos Açores. Sob essa lava jovem de quarenta anos (foi em 1957 -58 que a erupção aconteceu) podemos viajar como o primeiro homem sobre a Terra, o primeiro astronauta que desceu na Lua ou aquele que irá desembarcar um dia na desolação vermelha de Marte.

Imaginemos então que os Açores não são nove ilhas mas uma só, uma espécie de continente virtual, uma nova Atlântida onde vamos compondo o puzzle dos lugares que o mar separou e nós pacientemente juntamos por afinidades ou contrastes, uma paisagem interativa. Dos Capelinhos, passo, sem transições para São Miguel – uma ilha que julgava conhecer bem e de que o meu amigo Carlos Medeiros me revelou insuspeitados segredos – e entro diretamente na atmosfera surreal de umas termas abandonadas à beira-mar, uma cratera, uma casa branca, duas araucárias.

Na baía da Caloura à noite, com a sua velha piscina fantasmagórica, sinto-me transportado para um verão do pós-guerra, o fim da infância nos anos 50. Salto por cima do tempo, anos 90 a acabar: outra piscina, destruída pelo último temporal, uma moradia moderna de basalto e vidro apontada ao mar agreste.

Deixo-me então perder no labirinto urbano de Angra, a Horta e Ponta Delgada se entrecruzam ( e eu que, horrorizado com a medonha marginal da capital micaelense, não soubera até agora desfrutar daquelas ruas estreitas e brancas onde bate o coração da cidade!)

A digressão poderia continuar num jogo interminável de imagens: florestas, caminhos selvagens de montanha, jardins tropicais (haverá outro mais belo na Europa do que o do hotel Terra Nostra, nas Furnas?) as caldeiras, as fumarolas, a água oxidada das piscinas, a terra viva e a crepitar dos abismos. E esse lugar absolutamente mágico, cenários de uns encontros imediatos de terceiro grau, que é a Lagoa do Fogo. (…)

Por incrível que possa parecer, numa terra onde a imagem do abandono é a primeira que nos acolhe, Santa Maria é talvez a terra portuguesa onde a paisagem rural está mais exemplarmente preservada. Casas caiadas de branco e debruadas a azul, verde, carmesim, com suas chaminés e telhados impecavelmente conservados ou reconstruídos, pontuam harmoniosamente as encostas do interior ou as falésias sobre o mar (a baía de São Lourenço, com as vinhas em socalcos e a aldeia debruçada sobre as pequenas praias de areia branca, é um espanto). (…) Mas isto não é tudo: circula-se pelas estradas da ilha em verdadeiros tapetes de veludo betuminoso, numa viagem de prazeres calmos e suaves como a paisagem solicita.

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Publicado por em Maio 27, 2012 em Açores

 

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