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Na Ilha Azul

26 Maio

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Fotos de  Quartos para férias na Matriz, Horta, Faial

José Quitério

(in Expresso, 19 de Junho 1993)

Já percebi o que as nove ilhas tem de mais belo e as completa é a ilha que está em frente. Se esta perceção de Raúl Brandão (em As Ilhas Desconhecidas, 1962) se pode aplicar a muitas delas, a nenhuma se cola com mais evidência do que ao Faial. É o Pico, a ilha e a montanha mágica, do outro lado do Canal. Ainda o impressionismo brandoniano: A outra coisa que exerce aqui uma verdadeira fascinação é o Pico – tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada. Toma todas as cores: agora está violeta, logo está rubro. A cada momento uma nova transformação. Todo o céu dourado e o Pico roxo. Tarde e a lua enorme a nascer por trás daquele paredão imenso que chega ao céu. É majestoso e magnético. Está ali presente como um vagalhão que vai desabar sobre o Faial.

Numa rápida viagem ao redor da ilha – 21 quilómetros de comprimento e 14 de largura máxima, superfície de 173 quilómetros quadrados -, saia-se da Horta para norte e suba-se ao morro da Espalamaca, com pitorescos moinhos, bom miradouro sobre a cidade, o mar, as ilhas de São Jorge e Pico, e igualmente boa perspetiva sobre o verdejante vale dos Flamengos, onde se fixaram os primeiros povoadores. Siga-se para a Praia do Almoxarife, de amplo areal, e sucessivamente Pedro MiguelRibeirinha, SalãoCedros e, contornando a respetiva Ponta, a Fajã da Praia do Norte, donde se alcança a baía da Ribeira das Cabras, num trajeto ladeado por falésias de grande beleza, com campos de lava (“mistério”) e grandioso panorama da costa norte. Um saltinho e está-se na Ponta dos Capelinhos, local da formidável erupção vulcânica de 1957- 58, que criou uma ilhota que veio juntar-se à terra firme e arrasou casas e campos em redor. Lá está ainda, testemunha da catástrofe, o fantasmático e semidestruído farol, e lá existe um curioso museu documentativo da calamidade vulcanológica.

O regresso é mais cordato, passando-se por Varadouro, centro da vigiliatura em termas e piscina natural entre rochedos, Castelo Branco com a sua Ponta e consequente promontório (o aeroporto fica perto), Feteira, de costa guarnecida de grutas e furnas marinhas, finalmente o Monte da Guia, sobranceiro à Horta que está ligado pelo Monte Queimado e estreito istmo, com suas admiráveis Caldeirinhas, sua reputada Ermida e sua paisagem protegida.

Em qualquer altura é fundamental ir-se ao meio da ilha para a visão da Caldeira,, cone vulcânico com uma enorme cratera – 1 450 metros de diâmetro e 400 de profundidade -, revestida de cedros, zimbros, faias, fetos e musgos, obviamente reserva natural. Perto, o Cabeço Gordo, com 1 043 metros, outro magnífico miradouro desta e doutras ilhas.

Melhor que falar da cidade da Horta é percorrê-la placidamente. E, para além do traçado e dos monumentos, mas com a ajuda das pinturas do paredão da doca, facilmente nos apercebemos de um certo caráter cosmopolita que lhe enforma a alma. Nada de admirar. O seu fundador foi o flamengo Josse van Huerter (donde derivam Horta, Utra, Dutra); no século XIX, os estrangeiros foram trazidos pelo cônsul norte-a,americano John Dabney que marcou, mais os sucessores, toda a centúria; no princípio do nosso século XX foram os franceses, ingleses e alemães que pertenciam às companhias de cabos submarinos; depois, de 1936 a 1945, os hidroaviões a fazerem escala por aqui; sempre, veleiros e iates das mais variadas nacionalidades a procurarem abrigo do porto.

Com ou sem sede, é imprescindível visitar o Café Sport, ou Peter’s, o bar mítico da cidade. Ponto de encontro dos iatistas de todo o mundo que dele fazem posto de correio e de câmbios, agência de informações e porto de auxílios vários, ao seu proprietário prestimoso, José de Azevedo (a quem há muitos anos um inglês crismou de Peter), se deve o fabuloso Museu Scrimshaw, no primeiro andar, riquíssima coleção de gravações em dente e osso de baleia. Parece mal sair-se sem lá tomar ao menos um gin-tónico.

De longada agora até às muralhas do Porto Pim e ao Pasteleiro. Tão falado este no Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio – fucava por lá a quinta dos Dulmos, e João Garcia chega a proclamar: O Pasteleiro é a volta dos tristes do Faial… Bastam uns meses longe para a gente ter saudade disto.”

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Publicado por em Maio 26, 2012 em Faial

 

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