RSS

Mar matinal

01 Out

*

(crédito de imagem – Hélio Sales)

*

“Havia dias em que via o manso e malhado e percorrido de correntes e percebia que o deviam apequenar os efeitos da refracção da luz e alinha quebrada por reentrâncias terrestres que se interpunham no horizonte da água. Esmagava as sementes de funcho entre o polegar e o indicador, cheirava o tegumento de massa branca e julgava que todo o campo salteado de salsaparrilha e feno e restos secos de labaças tinha o cheiro anisado e amarelo que subia dos tufos mais secos das funcheiras, de que partiam rastos desses chorões de flor carmim a que chamam bálsamos. Era um mar de verão que consentia o encapotamento dos sentidos, apaziaguava, podia ser humedecido pelas malhas dos cômoros e pelo canto rasteiro das aves escuras por entre os vergões iluminados. Um mar verdadeiramente matinal, sem barcos, esquecido; o mesmo mar que no outono seguinte, como numa só noite foi suficiente para ver, faria desaparecer praias, parte de casas litorais, paredões de portos até.”

(Joaquim Manuel Magalhães, Do Corvo a Santa Maria, 1993)

Anúncios
 
Deixe o seu comentário

Publicado por em Outubro 1, 2011 em Mar

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: