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Açores – 9 Ilhas

04 Ago

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“Partamos em demanda dos Açores. Mas, como descrever, em poucas linhas, esse ramalhete de terras (São Miguel, Santa Maria, Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo) que formam o arquipélago a estreitar distâncias entre a Europa e a América, se tão diferenciadas entre si, na paisagem, usos e costumes?

Como transmitir ao leitor o panorama edénico das micaelense lagoa das Sete Cidade, vista do mirante vulcânico que a rodeia, tendo lá, no fundo abismo, os dois pequenos lagos (verdes as águas de um, azuis as do outro), entre renques de flores e campos tenros? E que contar do Vale das Furnas, das caldeiras ferventes, rugidoras, expulsando enxofre, como entranhas demoníacas da ilha mansa, oferecendo-nos, à superfície, o sorriso das hortências, a benignidade dos ares lavados?

E que palavras encontrar para dizer do ancestral heroísmo de Angra, aqueles touros furiosos afugentando o exército filipino, os “bravos” do Mindelo embarcando com o seu imperador para ocupar o Porto e Portugal? E do altíssimo Pico e suas praias de onde partem os intrépidos pescadores à saga da baleia, levando, decerto, no farnel, o “vinho de cheiro” que a ilha produz, aromático e leve? E do mimo dos seus doces de tradição tão portuguesa? Papos-de-anjo, rebuçados de ovos, queijadas de Vila Franca do Campo, cornucópias, fofos do Faial, camafeus. E da solenidades das suas festas religiosas, que evocar? Os impérios do Espírito Santo, da Pascoela ao Pentecostes, de ressonâncias medievais; a pompa e devoção dos festejos micaelenses ao Senhor Santo Cristo, coberto de ouro e pedrarias, que faz afluir à ilha o emigrante saudoso, radicado nos Estados Unidos (o Calafona da gíria local); a humildade dos romeiros quaresmais, descalços, na mão o terço piedoso e o duro pau ferrado para ajudar a peregrinação por caminhos e capelas, rezando (como escreve Côrtes Rodrigues) pela paz da nossa terra.

Não! Em poucas linhas não é possível falar do povo açoriano, trabalhador e sério, de refinada educação, entregue, por amor, ao cultivo dos seus campos, à exploração do seu mar. (E que também sabe divertir-se em dias de romaria, bailando a característica sapateia, em rodas bem marcadas.) Não! Em poucas linhas não se abarca estas nove ilhas simbolizadas por nove estrelas (tão exactamente!) na bandeira que a todos representa, onde paira o açor que lhes deu o nome. Silêncio, então.”

(António Manuel Couto Viana)

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Publicado por em Agosto 4, 2010 em Açores

 

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