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2341 m

01 Jul

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“O espetáculo é deslumbrante e emociona, mal se abre a janela pela manhã – que é a melhor hora para este êxtase se se tem a sorte de viver na correnteza de casas que circundam a baía da Horta, daquelas que se erguem logo após o Porto Pim até às que beijam o promontório da Espalamaca. O Pico ali está, imponente, erecto cume a que só falta fumegar para recordação do vulcão que foi. Vomitou tudo o que tinha dentro? mistérios densos e insondáveis, só traídos pelos “mistérios” que são correntes de lava solidificada, interrompendo a fertilidade dos campos cobertos de vinha e marcando o seu caminho antigo, deslizante e milenar até ao mar.

A montanha mais alta de Portugal ali está, dando nome à ilha e justificando-lhe a própria existência. Dá-se-lhe a volta sem se lhe voltar as costas, impressionados. Para os melhores galgadores, não convém desperdiçar oportunidade de o subir até bem ao cimo, para presenciar vista inolvidável de toda a nesga da ilha que resta na base, e admirar de um lado a esguia S. Jorge e em frente a circular e mais plana ilha do Faial. Depois, escorregar até ao fundo da cratera, enquanto deixa o guia, que se aconselha vivamente, não vá precisar de patrulha salvadora para poder reencontrar o trilho que o traga à civilização.

Mas, repete-se, a vista onde melhor se recorta esta serrania – que por vezes se veste de chapéu de neve, tão alta é – alcança-se das janelas das antigas casas do Faial. A não perder por nada do mundo: é a melhor maneira de esfregar os olhos ao acordar na cidade que tem o porto mais concorrido de iates que demandam aventura do cruzamento das águas do atlântico, de lés a lés, e em que pululam histórias de mar.

O regresso da visita à própria ilha do Pico – que se faz calmamente em algumas dezenas de minutos agradáveis nas lanchas de serviço público que a ligam ao Faial – valerá para ir vendo afastar-se o cone em sucessivos mágicos reenquadramentos, para então voltar-lhes as costas e apreciar também o que o gesto humano, e o gosto, podem fazer: a arquitetura da cidade da Horta mesmo junto à linha de água é soberba, mau grado arreliadores mamarrachos começarem a surgir porque ignóbeis patos bravos e edis imaginam que serão esses os traços do progresso, e lhe estragam a harmonia.

O mar, mais denso dentro da enseada, ainda lembra as guerras dos homens com as baleias de passagem. O Pico, imóvel, foi testemunho de tamanhas batalhas de vida e de morte, que salpicavam o azul marinho profundo com a sangreira dos corpos dos monstros e dos seus atracadores. É toda essa mística que se pressente quase como um destino quando olhamos, pequeninos, esta montanha tão geometricamente construída pelos magmas.”

in Guia Expresso, O Melhor de Portugal

 

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Publicado por em Julho 1, 2010 em Pico

 

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