- O Largo do Infante
.

*
“Em tempos recuados houve neste frondoso local o denominado portinho do Beliago, desaparecido, em 1675, quando o capitão-mor Jorge Goulart Pimentel mandou prolongar a muralha da cidade e ligá-lo ao castelo de Santa Cruz.

A partir desta data conheceu várias atribulações, sendo parcialmente destruído pelo temporal de 20 de Janeiro de 1898, e também várias designações. “Largo de Neptuno” de 1867 até 1894. No âmbito do quinto centenário do nascimento do Infante D. Henrique, a Câmara Municipal associando-se àquelas comemorações, decidiu alterar-lhe o nome para “Largo do Infante”.

*

*
(crédito de imagem: Luís Correia)
Posteriormente, em atitude panegírica e exaltante, tão ao gosto da postura ideológica do Estado Novo, foi recém-baptizado largo embelezado com uma estátua do dilecto Infante, uma simpática deferência da Câmara Municipal de Lisboa, que a emprestou à sua congénere local, cuja inauguração solene ocorreu a 1 de Dezembro de 1940, no âmbito das “Comemorações Centenárias”.

Decorridos vinte anos certamente por devolução ao respectivo proprietário da estátua emprestada, foi esta substituída pelo actual busto e divisa da casa do referido Infante “Talent de bien faire”, obra do escultor micaelense Numídico Bessone, conjunto inaugurado a 16 de Julho de 1960, procedendo-se igualmente à alteração da anterior designação para “Praça do Infante”.

*

Nesta Praça, são ainda de referir os quatro exemplares de Phoenix Canariensis, vulgo palmeiras, classificadas pelo Decreto Legislativo Regional nº28/84/A, de 1 de Setembro, plantadas após as reparações dos estragos provocados pelo referido temporal de 1898.

Em gaveto relativamente à Praça do Infante, destaque para o edifício de características eclesiásticas-”arte deco”, construído após o terramoto de 1926.”
(César Gabriel Barreira, Um Olhar sobre a Cidade da Horta, 1995)
*

Café Internacional*
.
Os irmãos Azevedos falavam-me muito
deste café. Vinham aqui fugidos à missa
do meio-dia de domingo. Vinham ler a
Duras. Eram guiados desde a Matriz por
uma espécie de simpatia imperfeita
aversão a partir da semelhança dos
sentimentos. Os irmãos Azevedos
contavam-me acerca da alegria do pecado.
Por eles não percebi esta sala que
envelheceu desde esses anos sessenta.
Os metrosíderos do jardim estendem até
às primeiras mesas a sombra opaca de
um escuro verde; um verde queimado
que se deixa inscrever no losango de
vidro de uma das paredes; outro modo
verde. compaixão e amizade, similar
tendência das inclinações; estima e afecto
formam a complacente beleza deste café
de 1926. Uma simpatia imperfeita, mas
não o pecado sentido depois da missa
de domingo; temor inocente da adolescência
dos irmãos Azevedos, que tiveram aqui
a luminosidade do marinheiro de Gibraltar.
Pássaros que não voam de dia, senão de
noite. Um homem de ruína é provável que
se sente a estas mesas e que tome o
primeiro álcool do dia. Nas paredes as
silhuetas dos anos vinte observam uma ordem
de entusiasmo; um tempo de partida
um inútil regresso.
“Nem virá depois de ti quem te seja
semelhável.” Cantavam isto, tal e qual,
a outras aves do mar.
É domingo. Os sinos de São Salvador não
param de tocar. Passamos facilmente do amor
e do afecto ao orgulho e à vaidade, uma
espécie de doce não sei com bolacha Maria e
ananás. Sob a sombra da folhagem. Um
verde queimado. Grã fortuna.
(João Miguel Fernandes Jorge, Terra Nostra, 1992)
* Café Internacional – sito no rés-do-chão do referido edifício
