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“O início do sonho da ascensão ao Pico ia cumprir-se, a lua corria nos pinhais. Da base da ilha, a montanha erguia-se mansa, poucas nuvens, apenas se congregavam em montão num pequeno ponto cimeiro. A cerca de vinte e cinco quilómetros da Madalena, aí a uns mil e duzentos metros de altitude, a carrinha largar-nos-ia para partirmos a pé e viria buscar-nos no princípio da tarde seguinte. Eu ia tão contente que nem queria ver o que o luar exigia, fugindo a entregar-me, sem o conseguir, às notas habituais nos solavancos de transportes que me enlouqueciam a letra.
À lua de julho, pareciam tufos graníticos nas suas cintilações falsas os adornos peculiares da luz sobre os basaltos; os caminhos que não seguiam a direito como a estrada, a que chamam caminhos cortados, surgiam mais largos no entrearvoredo farto e rasteiro. Os faróis batiam sobre últimas grijeiras ainda não fugidas das bermas, adivinhavam-se os arcos de lava junto ao mar orlados de urzes vulcânicas, em talha preta, como que ensinando ímpetos para furnas cimeiras e, mais alto, o espaço que deve ser (nem eu imaginava quanto) dolorosamente livre e encerrado.”
(Joaquim Manuel Magalhães, Do Corvo a Santa Maria, 1993)
